Autora Sandra Rodrigues. Data da publicação 11 de Julho.

Sabem aquele preconceito sobre a doença mental? Aquele que algumas pessoas usam para disfarçar o desconforto que sentem por acharem que, efetivamente, têm problemas mentais? Do tipo: “Adoro ser maluca” ou “as pessoas normais são aborrecidas” ou, ainda, “eu sei que tenho um problema diagnosticável clinicamente, mas prefiro gozar com a situação e não o tratar do que as pessoas me acharem mais desequilibrada e eu acabe por me sentir ainda mais “misfit” do que já sinto habitualmente”

Eu fui, durante muito tempo, esta última.

Desde miúda que lido com sintomas de depressão aguda, tendências suicidas, distúrbios alimentares, fraca autoestima e ansiedade. O ser humano é uma máquina incrível, consegue adaptar-se a qualquer situação. Como não sabia que o que tinha era um problema, sempre os encarei como características da minha personalidade, ignorando por completo o perigo que é menosprezar estes sentimentos.

Durante anos (e até muito recentemente) convenci-me de que não encaixava nesta sociedade, neste mundo, nesta vida. Não fazia ideia de que era a depressão a falar. Havia até um “Q” de self-importance que atribuía ao não sentir essa pertença. Este sentimento levou-me mais vezes do que gosto admitir até meio de pontes – por mais melodramático que possa parecer – levou-me até ao fim de caixas de ansiolíticos, lâminas e, por fim, internamentos. Há algo que muitos não entendem sobre quem tem doença mental e tenta racionalizar o comportamento… Nós não vemos a vida da mesma forma. Não atribuímos valor às mesmas coisas e não, não somos incapazes de perceber, como no meu caso, a importância da vida! 

Estava a sofrer, não era acéfala, insensível ou incapaz de empatia.

Devem-se estar a perguntar o que é que isto tem a ver com CrossFit. (Ou não, mas eu digo-vos na mesma.)

Quando comecei a aprofundar sobre como lidar com o sofrimento a treinar – acreditava que um dia poderia ser relevante na modalidade (ainda me rio muito com esta ideia) – encontrei imensos atletas a falarem sobre Mental Toughness* e como tinham procurado apoio psicológico para melhorarem o seu desempenho.

* “Mental Toughness” é um skill treinado nas mais diversas modalidades para que os atletas consigam resistir ao sofrimento, para os preparar psicologicamente para levar o corpo ao máximo. Este condicionamento também os prepara para a falha. 

Ora, nunca tinha imaginado tal coisa! Os atletas de Elite treinam mais que o corpo para uma prova. 

Quanto mais explorava esta temática mais me apercebia como era fundamental o psicológico estar preparado para a dor, para a fadiga. Que o que dizia a mim própria e a minha mentalidade durante um WOD pesavam na minha performance. E, acima de tudo, como seguir o plano, manter o foco em cumprir a tarefa e chegar ao fim, reconhecer o sofrimento como parte intrínseca do processo e levar a cabo o trabalho sem lhe atribuir mais peso, como, por exemplo, dizer “isto está pesado” ou “estou cansada” era fundamental para conseguir evoluir.

Li um texto do Ben Bergeron em que perguntava algo como: “Quando está a chover e tu dizes ‘está a chover!’ em que é que essa constatação melhorou o teu dia?”

Sobre muitas vezes condicionarmos o nosso cérebro a sentir mal-estar por razões sobre as quais não temos controlo e com as quais vamos ter que trabalhar independentemente de estarem a acontecer.

Toda a gente conhece o poder da mente e blá, blá, blá! Todos já ouvimos os chavões, lugares-comuns e sabedoria popular de como a cabeça controla o corpo e tal. Mas, nunca ninguém me tinha dito que ao querer ter um Clean pesado ia trabalhar para aprender a controlar e a fortalecer a minha mente, de tal forma que iria conseguir sair de uma depressão que durava quase desde que nasci. Como programar sofrimento – sim, muitas vezes fazer Crossfit é programar sofrimento no teu dia e ir a saltitar para ele como se fosse uma banheira de Ben & Jerry’s de Peanut Butter –  e cumpri-lo, me levaria à concretização de que, em momentos menos bons, acabas por fazer exatamente o mesmo:

Cerrar os dentes e cumprir a tarefa.

No próximo artigo, conto-vos como querer saber sobre mental toughness me levou a falar com um dos mais relevantes weightlifters chineses e com a Associação Portuguesa de Psicologia do Desporto.


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