Autora Jennifer Santos. Data da publicação 27 de julho.

A minha mãe sempre me disse para nunca me virar de costas para o mar. Contava-me histórias sobre um mar que se zanga quando é subestimado, vingando-se com ondas agressivas que eventualmente nos puxam e, um tempo depois, nos entregam à margem, sem vida, por ter desrespeitado a sua majestade.

Ao crescer, nunca fui aquela miúda de chegar à praia, ir direitinha ao mar e atirar-me de cabeça.

Caminhava à beira da água, molhava os pés e os tornozelos e regressava logo para a minha toalha. Zona de conforto: sem prejuízo, sem perigo. Nem é que não quisesse ir mesmo ao mar e afundar o corpo ao longo do vasto e infindável corpo aquático. Mas a lembrança de mim com 7 anos de idade, feliz, a saltar entre as ondas avassaladoras, um súbito ataque de desespero quando o mar tentou sugar-me e uma mão gentil e familiar a aproximar-se para me segurar fazia o medo falar mais alto do que o desejo interno e enterrado de me entregar ao seu potencial efeito libertador. Zona de conforto: sem prejuízo, sem perigo, sem adaptação, sem mudança. O oceano é um dos professores naturais mais fascinantes do mundo. No entanto, tal como na escola, apenas é possível aprender teoricamente se estamos dispostos a marcar presença. Por isso, um dia, decidi nunca mais faltar às aulas.

Aqui, o nosso Atlântico apresenta certos fenómenos extraordinários —para alcançar a parte mais redentora da sua existência, é preciso estar disposto a atravessar a sua barreira de desconforto. Temperaturas desagradavelmente baixas, ondas rompantes que quase nos empurram para o chão, nunca confies no oceano traiçoeiro. Mas, quanto mais relaxares dentro do seu primeiro e aparente abraço inóspito, mais agradável será a experiência.

Quando encontramos o lugar onde as ondas se enrolam no seu auge, é quando devemos tomar o passo contraintuitivo de avançar.

Quando as ondas mais fortes ameaçam nos expulsar de si, é quando devemos dobrar os joelhos e mergulhar o mais próximo possível da superfície em direção ao horizonte. Depois, uma grande descoberta pode acontecer. Assim que alcanço a porção mais suave da formação das ondas, dá-se em mim o desejo de correr mais além em direção à vastidão do oceano, quase que a tentar perseguir algo muito parecido ao que poderíamos chamar de perigo. Essa fome pode potencialmente nos aproximar a mais um daqueles soberanos momentos de alinhamento absoluto com o êxtase de se sentir vivo através de todos os sentidos. Mudança. Atirar-se de cabeça.

Costumamos dizer que “quem vai à chuva, molha-se”, como se se molhar fosse algo errado, mas aprendi que mergulhar no desconhecido é o comportamento mais benéfico para realmente aprender alguma coisa. Crescimento. Apenas os corpos biológicos mais raros são capazes de crescer sem tocar na água. Mas eu não sou rara, sou humana e enquanto tiver em mim a capacidade de respirar, quero continuar a ser estudante de tudo aquilo que não compreendo instintivamente.

A minha mãe sempre me disse para nunca me virar de costas para o mar. Nunca compreendi o significado disso. Obrigada, mar, por me teres ensinado.


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