Autora Jennifer Santos. Data da publicação 27 de agosto.

Há duas semanas, vi um pombo morto. Poderia ter sido apenas um pombo morto, ou melhor, era mesmo um pombo morto, e tendo em conta a sua aparência plana contra o alcatrão, estava definitivamente morto. Pobre pombo morto, pensei, enquanto galopei despreocupadamente por cima dele para completar a minha terceira ronda de 400m de corrida.

Depois desse dia, passei por ele várias vezes. Ainda passo. O mais interessante é que o meu reconhecimento quanto à sua presença sem vida não desvaneceu com a passagem do tempo. Aliás, como certos resultados estatísticos inesperados, reduziu em intensidade e aumentou em consciência.

Agora, sempre que o vejo, aponto para ele como se de um velho amigo se tratasse, e penso, olha, ali está ele!. Parte de mim, enojada e vagamente entristecida pelo vislumbre daquela decomposição exposta. Outra parte de mim estranhamente familiarizada com o cenário mórbido, sussurrando um olá amigo absolutamente irracional assim que o avisto de longe.

No entanto, o aspeto mais memorável deste pobre pombo morto não é a sua morte deprimente, nem o facto dos seus colegas viverem num teto com uma vista privilegiada da sua putrefação. Mas que quando a brisa salgada passa—e todos sabemos o quão frequente acontece estando a 20m da ria e a 7km da praia—ela insiste em tentar levantar do chão uns milímetros das asas partidas daquele pombo.

É, sem dúvida, um acontecimento mundano, visto que este não é o primeiro nem será o último pombo no mundo em estado de deterioração no meio de uma estrada qualquer. Contudo, as circunstâncias levaram-me a uma racionalização construtiva daquele panorama. O pobre pombo morto não tem outra opção senão manter-se colado ao chão e jamais se submeter à vontade do vento em fazer aquelas asas voarem novamente. Todavia, com um pulso operacional e uma anatomia relativamente intacta, qual é a nossa desculpa para recuarmos em negação voluntária ao invés de nos submetermos ao voo quando o vento sopra na nossa direção?

Eu sei que um dia aquele corpo evanescente não estará mais ali. Os ventos levá-lo-ão para o relvado vizinho, o sol queimará o resto das amostras daquele ser que ainda permanecem, ou a maré cheia nadá-lo-á em direção à ria numa tentativa falhada de replicar o funeral glorioso de um guerreiro Nórdico. Mas enquanto me lembrar que até aquele pobre pombo morto, na sua quietude inevitável, foi capaz de catapultar este raciocínio…. Acredito que, afinal, maioria dos episódios efémeros de desconsolação total terminarão bem.

Foi mais uma crónica motivacional da nossa Co-Writer, queremos saber a tua opinião sobre este tipo de artigos!


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