Autor MTW. Data da publicação 31 de agosto.

MTW – Olá Ana, antes de mais obrigada por teres aceite o nosso convite para partilhares um bocado do teu percurso no âmbito do Fitness. Pedia-te agora que nos falasses um pouco de ti.

Ana Bárbara Simões – Antes de mais, muito obrigada pelo convite. 

Chamo-me Ana Bárbara, tenho 21 anos, sou formada em Gestão na Universidade NOVA de Lisboa e vou agora começar o mestrado em Finanças na NOVA também. 

Sou filha de pai português e mãe brasileira e já vivi no Brasil, Moçambique, Suíça e agora em Portugal. 

O meu percurso no fitness começou em 2015 quando fiz a minha primeira dieta e comecei a interessar-me por nutrição e desporto. 

Descobri o culturismo, em 2016, e comecei a ler livros de nutrição e a ouvir podcasts, vídeos no youtube e ler artigos científicos. 

Descobri profissionais como o Eric Helms, Jeff Nippard, Layne Norton, Sohee Lee, Lyle McDonald, Greg Nuckols, entre outros, e comecei a interessar-me por culturismo e nutrição, suportados pela ciência.

MTW – Fala-nos um pouco sobre a tua relação com a alimentação no passado?

Ana Bárbara Simões – Comecei a contar calorias em 2015, mas na altura não tinha muita preocupação com a composição dos alimentos no que toca macronutrientes e micronutrientes. A minha primeira dieta foi muito restrita, muito baixa em calorias e, a nível de treino, fazia muito cardio.

Em 2016 comecei a fazer treinos “mais virados” para o bodybuilding e aderi à “dieta flexível”, em que tinha certos objetivos de macronutrientes diários e comia o que queria, desde que cumprisse as metas que tinha definido. Continuava com uma mentalidade muito rígida, pois nunca falhava a dieta e não suportava ter uma margem mínima de erro ao contabilizar os alimentos. 

Em Maio de 2017 decidi fazer o meu segundo cut onde tinha o objetivo de perder apenas 2-3kg. Na altura, já tinha muita ansiedade em relação à comida e aos meus objetivos de macronutrientes. Por mais que a dieta que eu seguisse fosse apelidada “dieta flexível”, a minha mentalidade era tudo menos flexível. 

Faltava a eventos sociais que envolviam comida, porque não queria exceder as minhas calorias diárias, deixei de sair à noite com amigos, de fazer viagens longas ou aproveitar a comida local porque não ia ter acesso ao ginásio.

Para além disso, tinha imenso medo de ganhar peso! E, no verão de 2017 perdi 10kg devido a compensações que fazia no dia a dia, chegando a pesar 40kg com 163cm. Fui diagnosticada com anorexia nervosa. 

MTW – Quando e porque é que decidiste mudar essa relação com a comida?

Ana Bárbara Simões – Durante muito tempo os meus comportamos extremistas eram normalizados na minha cabeça por estar sempre exposta a pessoas no youtube ou no instagram que tinham comportamento semelhantes ou ainda mais radicais. 

Via raparigas que faziam horas de cardio, que só comiam “limpo” e abdicavam de muitos eventos sociais em prol do culto do corpo e isso fez com que eu normalizasse esses comportamentos.

Demorei algum tempo a aceitar que tinha um distúrbio alimentar porque, apesar de não ter perdido os 10kg em 2017 de propósito, este acontecimento foi resultado de uma fobia a ter uma massa gorda mais elevada, devido aos padrões que criei ao ser exposta ao mundo do fisiculturismo durante anos. 

Em Setembro do mesmo ano decidi ganhar peso e trabalhar na minha relação com a comida e com o corpo.

Criei o meu Instagram onde partilhei a minha jornada para uma mente mais equilibrada em relação à comida e ao ginásio, mas levei anos até “livrar-me” de certos comportamentos compensatórios e extremistas. Eliminei o antigo Instagram durante uma fase muito má e criei um novo no final de 2019, onde continuo a ser muito aberta em relação ao assunto.

Passei por muitas fases: tive anorexia durante alguns anos, alguns comportamentos bulímicos e compulsões alimentares, até chegar onde estou hoje. Considero que, apesar de ainda ter algumas coisas que gostaria de melhorar na minha mentalidade, já não tenho um distúrbio alimentar. 

MTW – Quais foram as 5 pessoas-chave que te apoiaram e permitiram chegar onde estás hoje?

Ana Bárbara Simões – Mencionar apenas cinco pessoas é dificílimo porque sinto que durante os últimos anos tive uma sorte enorme no que toca a apoio emocional e de amigos que me ajudaram imenso no processo. 

5 pessoas que realmente tiveram o maior impacto na minha vida, em nenhuma ordem particular, seriam:

O meu pai com quem vivi durante 3 anos na Suíça. Na altura ele queria que fosse internada devido ao meu peso, mas quando lhe prometi que iria ultrapassar o problema sozinha e ganhar peso ele apoiou-me e confiou em mim. 

A segunda pessoa foi o meu ex-namorado, que agora é um grande amigo meu com quem estive durante 5 anos e que me viu em todas as minhas fases. Principalmente durante um distúrbio como a anorexia, o ganho de peso pode ser mentalmente muito difícil e a dismorfia corporal é real. Não consigo explicar o quão importante foi ter alguém que aceitava que não iria conseguir mudar as minhas atitudes de um dia para o outro, que tentava sempre perceber a minha ansiedade em relação à comida e faltar ao ginásio, por exemplo, alguém que me relembrasse que era amada e que o meu corpo não era de todo o elemento de maior valor, muito menos um requisito para que pudesse ser amada.

A terceira pessoa foi a minha melhor amiga com quem passei todos os dias na Suíça praticamente. Ela é das pessoas com a mentalidade mais saudável em relação à comida que já vi e ajudou-me imenso no processo porque era um exemplo da mentalidade que gostava de ter na altura. Lembro-me de inúmeras vezes ela comprar a comida dela em restaurantes e eu levar a minha “marmita” porque tinha de “controlar as calorias” e ela não julgar ou desrespeitar porque sabia que iria levar o meu tempo.

A quarta pessoa foi o Nuno Martins, que conheci quando fiz o meu instagram em 2017. A nossa amizade passou para a vida real quando vim para Portugal e considero-o um grande amigo, até hoje. Sem dúvida foi uma das pessoas que mais aturou as minhas obsessões e conversas sobre o ginásio e macros durante horas e horas e quem me acalmou em momentos de muito stress. O facto de ter estudado e trabalhado na área fazia com que confiasse a 100% nele e foi a única pessoa que conseguiu convencer-me a aumentar as minhas calorias para ganhar peso mais rápido (devido a problemas de saúde que comecei a ter quando tinha 40kg).

A quinta pessoa foi a Anaísa Gonçalves que conheci também no Instagram e que considero uma das minhas melhores amigas, atualmente. É a pessoa que mais me atura e com quem consigo falar à vontade, pois sei que não vou ser julgada. Penso que no processo de transição final de um distúrbio para uma vida “normal”, às vezes não conseguimos perceber quais são os comportamentos “normais” e quais foram normalizados pela indústria fitness e ter alguém que está na mesma jornada é super importante.

MTW – O que dirias a uma pessoa que estivesse na tua pele em 2017?

Ana Bárbara Simões – Diria que existem coisas muito mais importantes na vida do que manter um corpo “fit” com métodos insustentáveis e um peso onde o nosso corpo não funciona de forma saudável. 

Não é fraco quem escolhe ter qualidade de vida – ter um período regular, dormir bem, não pensar em comida 24 horas por dia e não sentir ansiedade quando vai a eventos sociais que envolvem comida porque vai “estragar” os planos, se isso significar relaxar em certos aspectos e não ter uma mentalidade de tudo ou nada.

Não vamos ser menos atraentes por  termos uma gordurinha a mais e ninguém nos vai julgar por isso – e se o fizerem, não deveriam estar no nosso círculo de amigos. 

Diria que existem objetivos de vida muito mais gratificantes do que o culto do corpo e que muitas vezes é preciso encontrarmos outra “paixão”. 

Não tenho nada contra quem faça culturismo e escolha este caminho, mas a realidade é que a maior parte de nós não ganha a vida a fazê-lo. 

É difícil, mas não é impossível aceitarmo-nos e gostarmos de nós com mais 30kg ou com qualquer que seja o peso saudável que precisamos de ter para nos sentirmos em paz e equilibrados. 

https://www.instagram.com/p/CEe-TblHNkp

MTW – Quando e porque é que decidiste praticar Powerlifting?

Ana Bárbara Simões – Decidi praticar Powerlifting porque é um desporto muito focado na performance e não no nosso físico. Não precisamos de ter abdominais trincados, nem restringir-nos para manter um peso insustentável para dar o nosso melhor. 

Foi algo que me ajudou imenso a melhorar a minha relação com o meu corpo – focar-me no que o meu corpo consegue fazer e não, necessariamente, na sua aparência.

Para além disso, treinar tornou-se na minha terapia e são aquelas horas do dia em que me esqueço de tudo e de todos. 

MTW – Já participaste em alguma competição? Se sim, qual(is)?

Ana Bárbara Simões – Infelizmente ainda não. No início tive vergonha porque achava-me ainda muito fraca e não quis competir até ser ‘forte’.

Cheguei à conclusão que nunca estaria satisfeita e que nunca me iria achar forte o suficiente, o que não faz sentido nenhum, pois todos nós começamos por algum lado. 

Espero competir num futuro próximo.

MTW – Qual é o teu movimento favorito nesta modalidade e quais são os teus PRs neste momento?

Ana Bárbara Simões – Durante imenso tempo tive o peso morto como movimento favorito (o nome @anadeadlifts é uma boa pista), mas desde que comecei a treinar especificamente para powerlifting, o supino ganhou um lugar especial no meu coração e é o meu movimento favorito neste momento. 

Desde que comecei a treinar em casa não tive oportunidade para testar as minhas ‘reais’ repetições máximas, porque infelizmente não tenho alguém para fazer de ‘spotter’, mas os meus mais recentes recordes pessoais foram 122.5kg no peso morto, 58kg no supino e 80kg no agachamento.

Espero conseguir testá-los quando voltar ao ginásio em setembro. 

MTW – Enquanto atleta desta modalidade, quais são as tuas projeções para o futuro? 

Ana Bárbara Simões – Comecei agora o meu Mestrado em Finanças na NOVA e infelizmente a minha indústria é caracterizada pelas longas horas de trabalho, incluindo aos fins de semana, mas vou fazer o meu melhor para continuar a fazer do meu treino uma prioridade, não importa o país onde estiver a viver ou o trabalho que tiver. 

Espero continuar a competir em Portugal e internacionalmente, se eventualmente sair do País.

MTW – Quais são os atletas e/ou profissionais que te inspiram?

Ana Bárbara Simões – Quando encontrei o powerlifting a primeira atleta que segui foi a Stefanie Cohen, sem dúvida uma das minhas maiores inspirações. 

Desde então, comecei a seguir mais atletas que também falam abertamente sobre os seus distúrbios alimentares ou outros problemas, tais como depressão ou ansiedade e que passaram a ser também inspirações para mim, como é o caso da Lya Bavoil, Cynthia Leu, Maddy Maddawg e da Serena Abewh.

Lya Bavoil
Cynthia Leu
Maddy Maddawg

MTW – O que dirias a uma pessoa que começasse a treinar powerlifting hoje?

Ana Bárbara Simões – Eu diria que o mais importante é não nos compararmos aos outros. 

É fácil sentirmo-nos intimidados ou desmotivados porque ainda não somos tão fortes quanto queremos. Se calhar, ao início, todos os recordes pessoais parecem insignificantes ou algo que não se deve celebrar, mas, na minha opinião, essa é uma das vantagens deste desporto – trabalhamos para sermos mais fortes do que ontem, mas ao mesmo tempo, sabemos que somos mais fracos em comparação com o dia de amanhã. 

Gostava também de ver mais raparigas a experimentar o desporto, para acabarmos com a ideia de que levantar pesos não faz com que nos tornemos menos femininas ou atraentes. 

MTW – Se pudesses falar com o génio de Aladino, quais seriam os 3 pedidos que lhe fazias? 

Ana Bárbara Simões – Os meus desejos seriam continuar a ter saúde física e mental para conseguir seguir as minhas paixões, dar tudo o que tenho para alcançar os meus objetivos pessoais (por mais clichê que isto soe) e que distúrbios alimentares não existissem.

Muito obrigada Ana, por aceitares o convite e partilhares um pouco de ti connosco. Desejamos-te tudo de bom e esperamos ver-te a competir num futuro próximo. Até uma próxima!

Gostaste de conhecer a Ana Simões? Partilha a tua opinião connosco. 

Podes seguir a Ana no Instagram.


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