Autor MTW. Data da publicação 28 de Novembro de 2020

À conversa com Nuno Araújo

Uma figura relevante no mundo dos eventos desportivos, em Portugal, criador e organizador de grandes eventos, de diferentes modalidades desportivas. Nuno Araújo criou e organizou o Maia PowerExpo Sports Festival, com o Ultimate Fitness Games incluído, o Algarve Cross Training Summer Week e ainda, o Portuguese Showdown, a 1ª grande competição internacional realizada em Portugal, na Maia, em 2017, onde estiveram presentes 177 atletas internacionais num total de 302 inscritos.

Quando e qual foi o último evento de CrossFit que organizou? 

Foi o Ultimate Power Fitness Games, em 2019. 

Quantos atletas se inscreveram? 

Tivemos 432 atletas apenas nos UPFG. No entanto, não queremos muito mais do que 400 pois é o número máximo que nos permite garantir a qualidade do evento. 

Quais foram as maiores dificuldades que sentiu, quando organizou o evento? 

As maiores dificuldades, como sempre, é que em Portugal o valor que os atletas pagam para realizarmos um evento de qualidade, não tornam o processo fácil. Para termos uma noção, uma inscrição de um evento de CrossFit (CF) em Portugal, devia rondar os 40 ou 50€. Por consequência, é evidente que que as organizações teriam de oferecer um evento que compensasse aos atletas o valor que pagam. 

O CF começou de uma forma há uns anos atrás, mas desde então as coisas foram mudando. No início da era das competições em Portugal, o trabalho dos juízes e do staff era tudo por “carolice”. Quando existiam apenas duas competições nacionais, as pessoas gostavam de participar e ajudar, no entanto, quando começaram a surgir novos eventos competitivos, estas mesmas pessoas deixaram de perder fins-de-semana para trabalhar gratuitamente, pois deixou de ser rentável. Esta realidade foi mudando! Actualmente, por norma todo o staff recebe um pequeno valor para trabalhar no evento e alimentação e normalmente são necessários vários elementos de staff, que os organizadores devem ter em conta no orçamento. Em relação aos juízes é a mesma coisa, assim como o speaker do evento, que hoje em dia é um elemento importante para um evento de CF, todos estes elementos têm de ser pagos ao fim de horas de trabalho mesmo que muitos ainda colaboram por carolice, mas juntando esses pequenos valores vezes vários elementos, o valor torna-se significativo. Os atletas gostam de receber t-shirts das competições (embora grande parte as tire durante as provas), estes somam custos, que se tornam elevados com a quantidade de participantes e o próprio staff. 

Existem eventos lá fora em que se pagam 100€ de inscrição, e que acarretam elevados números de inscrições, porém é uma realidade distinta de Portugal. 

Fazem alguma coisa em específico para aliviar essas dificuldades? 

Eu imprimo a minha realidade, mas efectivamente, no final é o mercado que faz a realidade. Já falei com alguns organizadores de outras competições, onde concluímos que o valor de uma competição em Portugal tem mesmo de subir para os 40€, ainda que implique haver menos competições mas que estas sejam de qualidade, bem organizadas e que possam incluir uma série de fatores que fazem falta numa competição. 

Os UPFG têm umas condições razoáveis, só que existe um desânimo por parte dos organizadores porque chega-se ao fim e os eventos não dão muito retorno, depois de muito trabalho a organizar os mesmos.

As competições de CF dão muito trabalho, move-se uma grande quantidade de materiais, são as montagens e desmontagens, o recrutamento de staff e juízes, não é uma modalidade que, como outras, depende de 8 ou 10 atletas. 

Por exemplo, uma prova de Strongman tem 12 a 20 atletas, uma gala de boxe costuma ter 10 combates, ou seja 20 atletas. Estes eventos são fáceis de manobrar, no CF não, são 12 atletas por heat a competir num evento com 300 a 400 atletas, o que não é fácil de gerir

Qual é a sua opinião sobre o ecossistema de competições de CF em Portugal? 

Isto é outra questão importante, existem diferentes tipos de organizadores, aqueles que de facto organizam eventos e levam seriedade nos mesmos, e os amigos que se juntam para organizar eventos. Algo que tem acontecido muito nos últimos tempos, os 3 amigos de CF que olham uns para os outros e decidem “vamos fazer uma competição, seria giro até e cobrávamos uns 20€ ou 30€”. Não sei se o fazem a pensar na modalidade ou no lucro, seja o que for acabam por desvirtuar a realidade e faz com que haja mais competições do que atletas.

Mas como em tudo na vida, o tempo encarrega-se de “separar o trigo do joio”. Temos grandes competições em Portugal, não são as melhores do mundo mas temos como por exemplo os UPFG, PromoFit Games, Manz Cross Games, XFittest, Paredes Fittest Games,  entre umas 6 ou 8 provas anuais de CF que podemos chamar de bons eventos para a realidade e mercado nacional do Crossfit.

Fará sentido haver competições locais, que se fazem nas boxes e permitem aos iniciantes entrar e experimentar o mundo de competição, mais do que isso é desnecessário. Mesmo a nível de marcas nacionais, estas tornam-se mais selectivas onde acabam por optar apoiar os melhores eventos, num ecossistema tão sobrecarregado de competições.

Alguma coisa tem de mudar ou os eventos deixam de ser rentáveis, e deixa de ser algo em que se possa fazer um incremento de qualidade maior do que o que já existe nas competições. Vamos ver qual será o impacto que esta paragem do ano 2020 vai trazer, e o que é que em 2021 vai arrancar ou não. No entanto, havemos de assistir a uma sede de protagonismo por várias pessoas que vão querer fazer algo, uma vez que ficámos um ano sem competições. 

Os atletas têm o dever de pesquisar e seleccionar as provas em que faz sentido participarem, de modo também a promover a modalidade, em Portugal, devidamente. 

“Aproveito para informar que o UPFG irá aparecer em 2021 com um novo rebranding, ou seja, com um logótipo e imagem diferentes do habitual. Deixa de ser UPFG, passando a ser UFG – Ultimate Fitness Games, e continuará a fazer parte do Power Expo. Em 2022, vai surgir um novo evento espectacular, o Ultimate Summer Edition, que posso adiantar que será realizado numa praia muito famosa.

Eu sou uma pessoa muito criativa e gosto de planear as coisas com muita antecipação, penso sempre anos à frente porque é preciso haver nexo e conceito para um projecto.”

Já ouviu falar na federação F3P? 

Já ouvi sim, tudo o que é federativo não significa que impulsione ou que seja benéfico para o desporto. Temos os exemplos de marcas, que acabam por ser modalidades, como é o caso do CrossFit, UFC, Mr. Olympia, ou seja, a meu ver as federações funcionam bem no desporto escolar ou coletivos como basket, andebol e futebol em que lidam com muitas questões que dão importância à parte federativa. 

Não sei se será benéfico no CF, mas não tenho nada contra, poderá ser mais um veículo para a modalidade. Há uns anos fui abordado por uma figura do CF nacional para criar a federação nacional, uma vez que tenho a Associação Portuguesa de Cross Training e Atletas de Força, ao qual recusei pois não tenho nenhum interesse.

Quais são os gastos que têm para organizar os UPFG? 

Como disse antes, a organização de um evento de CF a sério, com 300/400 atletas exige muita logística, principalmente, no que diz respeito ao material, em que é preciso uma marca capaz de responder às necessidades de um evento desta escala.

A BOXPT que é uma das marcas que já contribuiu bastante para o desenvolvimento da modalidade em Portugal, tem uma grande capacidade de resposta para este tipo de organização e por isso continua a ser a parceira dos grandes eventos nacionais. 

Além das marcas de material e o staff, somam-se também os Prize Moneys estipulados pela organização. Eu, pessoalmente, não sou muito a favor dos prémios monetários, além de serem um grande dispêndio para a organização, é injustificável para os tipos de eventos que se organizam em Portugal, e sinceramente não acrescentam mais qualidade ou relevância a uma competição em Portugal. Mas ok, é um pequeno incentivo….sendo que grande parte dos atletas que se inscrevem não são movidos por estes prémios. 

Quando falamos nos prémios monetários, os valores para uma categoria devem sempre rondar a casa dos milhares de euros, multiplicado por todas as categorias que há, é impensável em Portugal.

Os prémios que fazem sentido no contexto nacional, são as estadias em hotéis em locais turísticos, experiências, entre outras coisas que justifiquem os valores das inscrições. 

As pessoas no CF gabam-se de pagar muito para treinar, reconhecem que a modalidade é relativamente cara, porém quando vão a uma competição ficam escandalizadas para pagar 5€/10€ de bilhete para assistir, há algo aqui que não bate certo. Isto é o que desacelera o progresso da modalidade em Portugal. Se todos pagassem a entrada, fossem assistir os amigos a competir, usufruissem do convívio, estes valores são importantes para a organização e permitem proporcionar melhores condições. No entanto não é a realidade, querem seguro, querem t-shirts, querem tudo mas não querem pagar para ir ver, querem pagar pouco na inscrição, o CF fica condenado no processo de crescimento a nível nacional. 

A dificuldade que existe em levar as pessoas a pagar para assistir pode revelar duas coisas: não gostam assim tanto do desporto ou não gostam de ver o desporto.

Não aprecio muito o formato competitivo dos eventos de CF. Como espectáculo desportivo é algo pobre, não é muito apelativo de visionar. Isto é,  ver atletas a correr de trás para frente, é uma confusão. Mesmo um conhecedor sério da matéria, se se distrair perde a noção de quem são os atletas na frente. Um dia quero fazer uma experiência e mudar esse formato, vou criar um evento à minha imagem, e com certeza que vai haver espectáculo desportivo. Aliás já tenho o evento desenhado de raiz faz mais de 3 anos. 

Os 6 ou 7 melhores eventos nacionais deviam formar uma liga nacional, onde um conjunto de pessoas credíveis com capacidade de mover as competições que devem ou não fazer parte dessa liga, possam dar a conhecer os melhores eventos nacionais. Nunca tirando o mérito das pequenas organizações, que são destinadas a principiantes. 

A nível de comunicação, trabalham com as redes sociais? 

Só trabalhamos com o facebook até agora, não tivemos presença no instagram mas já estamos a mudar isso. Já fiz live streaming da Power Expo, mas volto ao mesmo assunto, o meu interesse é que as pessoas assistam o evento ao vivo. Contudo, no futuro iremos entrar numa nova onda, que é o live streaming pago, embora continue a achar que o CF não será apelativo o suficiente para que as pessoas paguem para ver, tem de haver mais espectáculo. 

Gostaria de acrescentar algo mais? 

Gostava de anunciar que em breve vou divulgar a próxima edição do Algarve Cross Training Summer Week, que irá decorrer entre 26 e 30 de Junho em 2021. É um evento espectacular, com uma lotação de 200 pessoas que esgota sempre, além de qualidade contamos sempre com grandes figuras nacionais do CF como o Ricardo Pereira, Artur Sayal, Bruno Militão, Luís Sá Bastardo e José Sousa, que são os coaches oficiais do evento. O preço é super exclusivo e apenas para os participantes deste evento,  em regime de tudo incluído durante os 5 dias, no hotel luxuoso de praia Vila Galé Lagos.  O evento já conta com a presença de muita gente, inclusive pessoas de fora do país. Poderão contar com uma box outdoor, que é montada pela BOXPT, que é o nosso parceiro oficial.   

O que achaste da entrevista com o Nuno Araújo? Gostas deste tipo de conteúdo? Partilha e comenta, a tua opinião é importante para nós.

Autor MTW. Data da publicação 26 de Junho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Name