Autora Jennifer Santos. Data da publicação 3 de fevereiro.

Há uns meses comecei a ponderar. Ponderei e tomei uma decisão. É uma decisão que não foi tomada de leve. Precisei de algum tempo para realmente dar este passo e dizê-lo, em voz alta, escrevendo-o naquela língua que para mim tanto tem de impessoal como de pessoal. Até preferia escrever em inglês, assim eu me entenderia e vocês compreenderiam um pouco menos, ou pelo menos, a distância linguística permitiria que a associação não fosse tão grande. Mas o objetivo não é escrever para mim. 

Hoje, escrevo mesmo para quem lê. Até porque poderá ajudar alguém.

Isto é um pouquinho de mim. E talvez não deveria escrever isto, e publicar. Talvez seria melhor mostrar-vos o lado bonito da coisa. Mas todos sabemos que se aprende bem mais nos momentos em que as coisas se tornam tremendamente feias, e “ligeiramente” profundas.

Eu não sou atleta. Nunca fui. Nunca sequer gostei do termo. O meu hobbie não é a minha profissão. Nunca foi. Nunca será. Nem quero que seja embora no passado já tivesse querido. É muito simples confundir as coisas e usar o treino como um escape. Nada contra. O problema é quando evolui de escape ocasional para uma prioridade absoluta. O problema é quando se evita encarar os problemas reais para filtrá-los em problemas “atléticos”, obcecar sobre ainda não conseguir fazer o movimento X ou não conseguir levantar a carga Y.

Sempre fui daquelas pessoas que acredita naquela bela frase que agora é bem cliché, do “as nossas qualidades também podem ser os nossos piores defeitos”. E não é que podem? A questão aqui é: quando há excesso, tudo se torna doentio. E o corpo avisa. O corpo avisa tanto. Dizem que somos mais que o nosso corpo, mas cá para mim, o nosso corpo é bem mais do que aquilo que nós somos. Ele sente, e avisa. Ele sente tudo, até aquilo que nós, conscientemente, evitamos sentir. Penso que vocês não têm bem noção do quanto ele avisa. Avisa mesmo! Acreditem! Não é só aquela ideia do “ouçam a vossa voz interior”, aliás, eu trocaria a frase para “sintam o vosso corpo”. A sério. Sintam mesmo.

Eu errei. Errei. Não porque não o sentia. Eu sentia. Bastante. Mas silenciava-o. Com desculpas. Justificações. Muito treino. Muitas preocupações fúteis sobre coisas que no fundo não eram aquelas que me atormentavam. Ouvi quem não deveria ter ouvido, deixei a pressão exterior e interior levar o melhor de mim, permiti que a minha autoestima fosse degradada ao ponto de ao invés de me sentir mais confiante a treinar, me passasse a sentir mais fraca, não de forma humilde, mas de forma autodestrutiva. Tudo em excesso se torna doentio. Até o desafio, o “tough love” diário dos treinadores, a superação pessoal, até a ambição de querer ser mentalmente mais sistemático e metódico e desligar o emocional a todo o custo.

Atenção, eu não me arrependo de nada, pois tudo isto fez de mim quem eu sou hoje. Uma pessoa muito diferente daquela que a maior parte de vocês conheceu. Se eu não tivesse passado por isso, não conseguiria ver as situações de ambas perspectivas e ajudar o outro. Mas isto sou eu. Não tenho medo de dar a cara, porque hoje posso dizer que me sinto mais forte, saudável, e sobretudo feliz e apta para apoiar o outro de forma ponderada e racional. Para mim, isso é o mais importante. No fundo, sempre foi o que me motivou no treino — não os resultados em si, mas a possibilidade de poder ajudar alguém, e de alguma forma inspirar, nem que seja uma só pessoa de todas as que me leem/veem, que se sente incapaz e que, tal como eu, cresceu com a autoestima em altitude mais baixa que as das margens do mar morto (que segundo o literalmente rico Google, está entre um dos pontos mais baixos do planeta).

Para quem está a ler e a pensar que conhece alguém assim, e até que essa pessoa podes ser tu, é benéfico teres noção que aquelas pessoas de fora que te avisam, com aquele carinho meio engraçado, meio sarcástico, a modos que crítico, que talvez estás a ser excessivo/a, não é porque estão contra ti. Muito pelo contrário: é porque te veem. Por isso, não leves esses comentários como uma ofensa e pensa que, quando o silêncio se instalar, é porque já desistiram de ti — e não há nada mais triste do que levares as pessoas a deixarem de acreditar no teu bom senso. Por isso, ouve. Ouve quem perde um segundo que seja a dizer-te para descansares, para cuidares de ti não só entre quatro paredes mas lá fora.

O overtraining é muito associado a sintomas de cariz físico e emocional, mas acredito que existe uma fase “pós-overtraining puro e duro” que não significa propriamente que estamos curados dele, mas que evoluiu para algo bem mais grave e destrutivo, que é quando abraças o teu overtraining e o recebes com orgulho, como símbolo de disciplina e trabalho árduo. Não digo que não. Realmente é preciso muita dedicação para alcançar o topo da pirâmide e se achar invencível, tolerar a dor, habituar-se a ela até que a dor seja o que mais desejas sentir. Depois é acreditares que essa consequência é positiva, e que embora no fundo o teu corpo esteja a suplicar por ajuda, tu ainda crês que és indestrutível. Mas acredita, o teu corpo fala mais alto. Fala mesmo. Podes silenciá-lo durantes meses, anos, décadas, mas um dia, vais sentir um vazio, olhar à tua volta e dar-te de contas que a tua maior conquista na vida foi ganhares uma capacidade incrível para tolerar a dor. Nada mais.


Segue-nos!

1 thought on “Peculiaridades de um pós-overtraining – Parte I

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