Autor MTW. Data da publicação 5 de fevereiro.

Com a única missão de levar a modalidade de CrossFit para o próximo patamar, e contribuir para a sua evolução em Portugal, queremos partilhar com vocês mais uma perspectiva de um veterano de CrossFit no país.

Desta vez, estivemos à conversa com mais uma figura muito conhecida no mundo de eventos de CrossFit em Portugal. Alan Lopes, treinador de CrossFit, owner da box Silver Coast, em Aveiro e a MasterMind do conhecido evento, que já acumulou 13 edições e, anualmente, tem atraído cada vez mais pessoas – Face2Face Games (F2F).

Face 2 Face Games 2019

O F2F é o único evento de CrossFit em Portugal que pretende ser completamente inclusivo. Pretende integrar os amantes da modalidade quer estejam a iniciar ou num patamar mais avançado. O último foi o Face2face Games 2019 em Aveiro e foi a melhor edição de todos os tempos, contou com 900 atletas inscritos

Inicialmente a equipa de organização era muito pequena, pelo que tivemos que contratar mais pessoas para assegurar o certame com este número de atletas.

Tivemos eventos melhores, com uma maior expectativa de crescimento, mas nunca houve tantos atletas como nesta edição. É com grande orgulho que tenho observado o crescimento e desenvolvimento dos F2F. Embora o objetivo seja sempre superar o anterior.

Impacto da Pandemia na Edição de 2020

Em 2020, contava realizar 4 edições do F2F Games, 1 em Portugal, 1 em Espanha e 2 no Brasil, no entanto o contexto pandémico não nos permitiu. Embora se tenham realizado alguns eventos durante a pandemia, eu optei por não avançar depois de reunir com a Câmara de Ílhavo e a nossa equipa, e em conjunto decidimos não “queimar o cartucho este ano”, acima de tudo cabia-nos a responsabilidade de cuidar dos nossos atletas e dar o exemplo à comunidade. Fazer parte da solução desta pandemia, nunca do problema. A 1ª  vaga do Covid-19 foi forte e como sabemos, nada está acima da saúde das pessoas, nem o evento, nem o dinheiro

Teremos com certeza muitas oportunidades de regressar ainda com mais força e participação de todos.

Ao mesmo tempo, esta situação mundial atípica, permitiu-nos durante este ano, fazer uma reflexão sobre vários temas. Tivemos feedback através de inquéritos feitos nas redes sociais e por email onde muitas pessoas manifestaram o gosto de ver mais categorias no evento.

A estrutura dos F2F permanecerá inalterada, é um evento desenhado para equipas e é acessível para principiantes da modalidade de CrossFit. A nossa missão é fazer com que as pessoas que começam a praticar a modalidade tenham a oportunidade de viver o momento enquanto atleta e que seja o princípio para aqueles que procurem, no futuro, participar num Throwdown, CF Games ou uma atividade com maior pressão a nível competitivo.

O Face 2 Face Games

“O lema dos F2F Games é Viver o momento do atleta, viver o momento de alegria e confraternização, apoiar pessoas de outras boxes. Aquela rivalidade de participar para conseguir uma quantia de dinheiro no evento, não existe.”

Alan Lopes

As primeiras edições dos F2F, na altura designado por Silver Coast Invitational, eram direcionadas para categorias individuais, porém numa determinada altura percebi que não tinha a essência da comunidade de CrossFit. 

Na minha percepção, a comunidade de CF é feita por uma quantidade de pequenas células, que são as boxes, estas que foram criadas por Personal Trainers que foram atrás de um sonho. Criaram a sua pequena comunidade de dezenas de pessoas, desde a pontinha do Algarve até Chaves ou Torre de Moncorvo, inclusive as 5 pessoas que treinam numa garagem usufruindo do método. Isto é o CrossFit para mim! É a comunidade do treino funcional, as pessoas que gostam de se desafiar, que gostam viver o momento de atleta, são pais, mães que têm 2 ou 3 filhos com 2 trabalhos, mas que conseguem arranjar sempre tempo para treinar, este é o verdadeiro milagre, não é propriamente o atleta que faz um snatch com 3 dígitos. 

Foi por esse motivo, que alterei a estrutura do evento do F2F, foi a pensar nas pessoas que não procuram uma grande pressão a nível de competição, uma vez que esta pressão  exige um trabalho contínuo ao longo do tempo, energia física e mental e investimento. Considero muito mais importante esta parte de integração de todos na modalidade.

Sobre Ser Atleta Profissional em Portugal

Portugal é um país que ainda não possui uma estrutura enraizada, em que as pessoas possam contar com o apoio de patrocinadores com interesse em investir em atletas, o panorama é completamente diferente dos EUA, Brasil ou Austrália, por exemplo. 

Existe uma política neste país por parte das marcas, que é “Eu estou a fazer um favor ao estar presente no teu evento”, se num evento é assim, onde ainda se consegue um retorno financeiro, podemos imaginar como será para os atletas. 

Ser atleta de CrossFit em Portugal, é o “10º Passo”. Quem quiser seguir o percurso de atleta profissional, precisa: 

  • Ter tempo para treinar
  • Ter um treino de qualidade
  • Dormir e recuperar bem
  • Conseguir uma box que disponibiliza espaço para o atleta;
  • Um treinador capaz de responder às suas necessidades, esta tarefa exige uma grande dedicação do treinador sobre o atleta, como:
    • Saber analisar os dados acerca do atleta;
    • Conhecer os KPI’s do atleta;
    • Reconhecer o desenvolvimento do atleta; 
    • Saber desenhar a programação adequada;
  • Possuir uma métrica bem clara em relação ao que pretende;
  • Saber em que campeonatos quer/deve competir, e que lhe sejam acessíveis financeiramente;
  • Definir em que altura ambiciona alcançar os Games;
  • Entre outros. 

No fundo, ser um atleta de alta competição é um trabalho, e acaba por ser a sua fonte de rendimento. 

Para conseguir patrocinadores, os atletas portugueses são obrigados a procurar lá fora ou, devem ser capazes de cobrir grande parte das despesas para viver essa vida. 

É muito difícil ser atleta profissional em Portugal, ou é preciso ser uma obra da natureza como era o Pedro Bártolo há uns tempos atrás. 

Organizar um Evento de CrossFit em Portugal

Num evento, procuramos oferecer aos atletas uma variedade de sensações, emoções e experiências, o que por exemplo, justifica a presença de insufláveis, bandas e várias coisas novas. Tudo isto implica investimento financeiro tanto por parte de um gestor de evento como dos atletas e audiência, para que seja possível proporcionar esses momentos. 

A logística de criar o evento também envolve elevados custos, a nível de transporte, recursos humanos, alojamento e alimentação. 

Em relação aos prémios, é difícil colocar valores atractivos para que os atletas estrangeiros possam competir em Portugal, porque não há investimento para isso.

Certamente no próximo ano (2021), a fasquia em Portugal deverá aumentar, começando pelas inscrições. 

Relativamente, às marcas portuguesas grande parte delas são pequenas no mundo do CrossFit, o que torna as coisas mais difíceis, no entanto posso destacar o trabalho da TugaSox“A Guida esteve presente em todos os eventos do F2F, desde o ínicio”.

O F2F investe na publicidade do material das marcas que patrocinam o evento. Após os eventos as marcas têm conseguido vender grande parte do material que disponibilizam. 

O nosso interesse é que as marcas presentes no evento lucrem, pois sabemos que eles depois terão interesse em voltar e o evento crescerá. 

Por norma, as empresas pequenas são as que mais investem nestas organizações. 

Através de uma entidade organizadora de eventos com quem trabalhámos, contabilizámos mais de 6000 pessoas que marcaram presença no evento durante os 2 dias. É uma estatística fantástica, porém o retorno de investimento é muito fraco, o que deixa qualquer gestor vulnerável. 

Para fazer o CrossFit escalar em Portugal, a comunidade portuguesa precisa querer ir mais além e pensar em grande.

É necessário mudar o mindset tanto de quem assiste como dos que participam nas competições. É preciso aumentar o valor das inscrições, esta ação vai gerar uma cadeia de consequências positivas: contribui para o aumento de Prize Moneys; proporciona mais diversão; atrai mais patrocinadores; o evento e a modalidade ganham mais visibilidade no país. A possibilidade de atrair investidores é muito maior se a estrutura do evento trouxer pessoas de fora que maximizem o número de entradas no evento.

“Algo que me custa muito e acontece muitas vezes, é a comparação que fazem entre o F2F e as competições de pavilhão mas nada têm a ver. O F2F é feito ao ar livre, com uma paisagem fantástica, música, um ambiente de diversão, muita confraternização e solidariedade.”

Para avaliar este ambiente só mesmo participando, como atleta, plateia ou simples visitante curioso.

É fundamental também que as marcas e a sociedade conheçam os reais benefícios do mundo do CrossFit, as suas funções: solidárias, de higiene de vida mental e física. Creio que dando este salto teremos muito mais gente a praticar a modalidade e mais patrocinadores que se reverão nos seus valores.

Federação de Fitness Funcional de Portugal 

Sobre a Federação de Fitness Funcional de Portugal, parece-me uma boa iniciativa, no entanto, ainda não estou bem informado da sua missão nem a quem pretendem impactar. Nem sempre o que é federativo é bom e nem tudo o que é privado é mau. Dentro do que sei, acredito que a iniciativa é boa até que provem o contrário

O que achaste da entrevista com o Alan Lopes? Gostas deste tipo de conteúdo? Partilha e comenta, a tua opinião é importante para nós. Para acompanhares as novidades sobre o Face 2 Face Games, segue o segue o nosso calendário de competições.


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