Autora Jennifer Santos. Data da publicação 2 de março de 2021.

Tenho evitado. Tenho resistido à tentação de sair da conversa de grupo da equipa, deixar de seguir amigos atletas das redes sociais, e até de dar uma olhadela no levantamento da malta do ginásio antes de ir para o meu canto. Sou uma mentirosa. A verdade é que, sim, tenho o coração um pouquinho partido.

Abri a gaveta para olhar para o meu singlet, peguei nas minhas medalhas e fechei os olhos para rever com clareza aqueles dias que me fizeram sentir maior e simultaneamente mais humilde também. No entanto, não me sinto triste. Nem zangada. Nem frustrada.

As pessoas acham que sim. Porque eu amava este desporto. Porque me deu muito. O coach diz-me para me manter otimista e acreditar que vou regressar. Mas para ser sincera, otimismo e regresso são duas palavras que não fazem mais sentido para mim. Porque a verdade é que eu não quero regressar. E essa falta de paixão por algo que me movia todos os dias a dar o meu melhor é precisamente o que me quebra por dentro quando penso no assunto. 

A verdade é que: desapaixonei-me pelo desporto que me fez ganhar o respeito dos outros. Desapaixonei-me pelo desporto que me deu amizade. Desapaixonei-me pelo desporto que me fez sentir felicidade e entusiasmo. Desapaixonei-me pelo desporto que me fez sentir uma grande intensidade de dor física. E tal como qualquer relação onde há inspiração e admiração (duas características que considero essenciais no amor) – eu tentei.

“I tried to adapt, to switch up the scenario, to remember the good times and push through. And I did it”

Tentei adaptar-me, mudar o cenário, lembrar-me dos bons tempos e continuar. E continuei. Continuei durante mais um ano, num corpo massacrado, degradado e fracturado, com a esperança de que a chama voltasse a acender o suficiente para anestesiar a dor, como antes o fazia. Mas a cada sessão de treino, comecei a sentir cada vez mais desamor. Tal como qualquer relação à base de amor, onde o amor desvanece, mas continuas a lutar até ao ponto de exaustão numa tentativa falhada de fazer com o que já não é volte a ser.

Grande mudança. Eu costumava amar as coisas impossíveis. Parece que afinal, deixei-me disso. Parece que afinal, a minha consciência já vence à minha passada necessidade, quase masoquista, de arriscar a saúde. Parece que agora sei que o mais importante é fazer o que tenho de fazer pelo que eu penso a meu respeito (frase dita por alguém que sabe o que diz, e que me deparo a citar para mim mesma, e a amigos). Porque cheguei a um ponto em que a única coisa que me estava a prender ao desporto era o medo de perder as conquistas e o respeito que tinha ganho ao longo dos anos

Mas depois lembrei-me que, tal como qualquer relação à base de amor, as memórias permanecem e o verdadeiro respeito nunca desaparece.

E é por isso que tomei esta decisão – de deixar ir este bonito desporto que um dia amei. O desporto que me ensinou lições de graça e humildade. O desporto que me provou que se realmente te focas num objetivo, consegues alcançar coisas incríveis e ganhar muito mais do que podes imaginar.

As lições, jamais as esquecerei. Pois tal como qualquer relação à base de amor, às vezes deixar ir é a solução para ultrapassar o descontentamento e a dor para um dia se voltar a apaixonar por outra coisa.

Sem ressentimento, apenas paz e confiança de que da próxima vez, o final será diferente.

© Fotografias: Sofia Ribeiro


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